
Evolução da teoria do autocuidado e a sua especificidade na profissão de enfermagem
A evolução do autocuidado enquanto conceito central da enfermagem está profundamente associada ao desenvolvimento teórico iniciado por Dorothea Orem a partir da década de 1950. Num período em que a formação e a prática de enfermagem se encontravam fortemente dependentes de conhecimentos provenientes da medicina, da psicologia e da sociologia, Orem procurou identificar aquilo que constituía o foco específico e diferenciador da disciplina de enfermagem. A sua proposta partiu de uma questão fundamental: em que circunstâncias uma pessoa necessita de cuidados de enfermagem? A resposta encontrada foi que a necessidade de enfermagem surge quando a pessoa não possui capacidade suficiente para satisfazer, total ou parcialmente, as suas próprias necessidades de autocuidado (Fawcett, 2001).
A partir dos anos 2000, o conceito de autocuidado ultrapassou progressivamente uma interpretação predominantemente centrada nas atividades físicas e biológicas. Esta evolução acompanhou a transformação epidemiológica e social associada ao aumento das doenças crónicas, ao envelhecimento populacional e à necessidade crescente de as pessoas gerirem condições de saúde durante longos períodos das suas vidas. O autocuidado passou, assim, a incluir dimensões relacionadas com o conhecimento, a tomada de decisão, a gestão de sintomas, a adesão terapêutica, a adaptação emocional, as relações sociais e a capacidade de mobilizar recursos disponíveis no contexto de vida (Wilkinson & Whitehead, 2009; Ayes et al., 2020).
Neste processo evolutivo, a teoria de Orem revelou particular aplicabilidade à gestão da doença crónica e à enfermagem de reabilitação. O objetivo da intervenção deixa de ser apenas fazer pela pessoa aquilo que esta não consegue realizar, passando também por desenvolver capacidades, reduzir dependências evitáveis, apoiar a adaptação à doença e criar condições para que a pessoa consiga assumir progressivamente maior controlo sobre a sua saúde e funcionalidade (Fernandes et al., 2019; Hartweg & Metcalfe, 2021).
Na conceção contemporânea, o autocuidado inclui a capacidade para interpretar sintomas, reconhecer alterações do estado de saúde, tomar decisões adequadas, utilizar tecnologias de saúde, adaptar comportamentos, gerir regimes terapêuticos e procurar ajuda profissional em tempo oportuno. Consequentemente, ser autónomo no autocuidado não significa necessariamente agir sozinho ou dispensar profissionais de saúde; significa possuir a capacidade para participar adequadamente nas decisões e ações relacionadas com a própria saúde, utilizando os recursos profissionais e sociais necessários (Yip, 2021; Hartweg & Metcalfe, 2021).
Porque é o autocuidado tão específico da enfermagem?
Apesar de várias profissões utilizarem atualmente o termo autocuidado, a sua utilização em enfermagem possui uma especificidade disciplinar própria. Noutros contextos, o autocuidado pode ser entendido como promoção do bem-estar, adoção de estilos de vida saudáveis ou responsabilidade individual pela própria saúde. Em enfermagem, porém, o autocuidado constitui um objeto de avaliação, um foco do diagnóstico profissional, um resultado esperado dos cuidados e um critério para determinar a natureza da intervenção do enfermeiro (Taylor & Renpenning, 2011; Martínez et al., 2021).
A especificidade da enfermagem reside, em primeiro lugar, na capacidade de avaliar sistematicamente a relação entre as necessidades de autocuidado e a capacidade da pessoa para lhes responder. O enfermeiro não se limita a aconselhar a pessoa a cuidar de si. Avalia aquilo que a pessoa consegue fazer, aquilo que não consegue realizar, as razões para essa incapacidade, o potencial de aprendizagem existente e o nível de apoio necessário. A partir dessa avaliação, decide se deve substituir temporariamente a pessoa, ajudá-la parcialmente, ensinar, treinar, orientar, supervisionar ou criar condições para que esta recupere ou desenvolva capacidades (Yip, 2021; Nabila, 2023).
É precisamente este processo sistemático de avaliação-intervenção-ajuste que diferencia o conceito de autocuidado em enfermagem de uma utilização genérica do termo. O autocuidado não é simplesmente o objetivo de “fazer sozinho”; é o resultado de um processo clínico deliberado no qual o enfermeiro determina como maximizar a capacidade da pessoa sem a abandonar perante aquilo que ela ainda não consegue realizar. Esta distinção é essencial, porque a promoção da autonomia não pode ser confundida com transferência automática da responsabilidade dos serviços de saúde para a pessoa doente ou para a família (Greaney & Flaherty, 2020; Hartweg & Metcalfe, 2021).
Onde fazem os enfermeiros a diferença?
Os enfermeiros fazem a diferença no ponto de encontro entre a necessidade de cuidados e a capacidade humana para agir. Ao permanecerem próximos da pessoa ao longo das diferentes fases da doença, encontram-se numa posição privilegiada para observar alterações funcionais, compreender dificuldades concretas, avaliar a resposta aos tratamentos e identificar precocemente mudanças na capacidade de autocuidado. Essa proximidade permite transformar conceitos abstratos, como autonomia, capacidade ou participação, em decisões clínicas individualizadas, em que o enfermeiro compreende as preocupações da pessoa, interpreta os seus comportamentos, negoceia objetivos, adapta estratégias às suas condições de vida, fortalece a confiança e acompanha a evolução das capacidades. A integração entre a abordagem de Orem e teorias centradas na interação enfermeiro-pessoa reforça precisamente esta dimensão: o autocuidado é desenvolvido numa relação terapêutica e não apenas através da transmissão unilateral de instruções (Yip, 2021; Nabila, 2023).
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