
Os cuidados paliativos significam cuidar com prioridade no alívio do sofrimento. Implicam caminhar com o outro e reconhecer nele uma pessoa com um percurso, com passado, presente e futuro. Alguém cujo fim próximo não representa um desaparecimento absoluto, mas antes uma passagem para uma forma de existência que permanece ligada a todos os que ficam e a todos aqueles com quem se cruzou.
Por isso, é de primordial importância valorizar o sofrimento físico, emocional e espiritual da pessoa em fim de vida, precisamente porque esse sofrimento a torna mais vulnerável e, muitas vezes, mais dependente. Estes sentimentos devem ser compreendidos e acompanhados por profissionais competentes, em particular pelos enfermeiros, que assumem pela sua formação, uma visão holística da pessoa, integrada numa rede de relações, afetos, memórias e significados.
Este estudo demonstra que as pessoas desejam, cada vez mais, morrer em casa, com alívio do sofrimento e junto daqueles que lhes são próximos. Essa preferência não é apenas uma escolha de local; é também uma expressão profunda daquilo que nos torna únicos: o nosso lar, a nossa família, os nossos amigos, os nossos vínculos.
A morte em casa, quando devidamente acompanhada por equipas de cuidados paliativos, pode representar dignidade, presença e continuidade afetiva. Em contraposição, a morte solitária e impessoal vivida em contexto hospitalar continua a lembrar-nos que o SNS deve reforçar respostas domiciliárias, humanas e especializadas, para que o fim de vida não seja apenas clinicamente assistido, mas verdadeiramente cuidado.

Os cuidados paliativos significam, de forma profunda, cuidar da pessoa e da família na sua globalidade, através do alívio do sofrimento e da proteção da qualidade de vida ao longo da doença grave (Radbruch et al., 2020; Roth & Canedo, 2019). Não se limitam aos últimos dias de vida; as definições modernas situam-nos ao longo de todo o percurso da doença, com especial atenção à fase final da vida (Radbruch et al., 2020; Taylor & Davies, 2025; Ryan et al., 2020).
Significado central
Na sua essência, os cuidados paliativos correspondem a cuidados holísticos ativos dirigidos a pessoas de qualquer idade que enfrentam sofrimento grave relacionado com a saúde, tendo como objetivo melhorar a qualidade de vida dos doentes, das famílias e dos cuidadores (Radbruch et al., 2020; Ning, 2025). “Holístico” significa atender não apenas à dor e a outros sintomas físicos, mas também ao sofrimento psicológico, social, espiritual, cultural e existencial (Taylor & Davies, 2025; Azizi et al., 2025; Ning, 2025).
A palavra paliativo tem origem no latim pallium, ou “manto”, transmitindo a ideia de proteção, abrigo e alívio da carga, mais do que a cura da doença em si (Pastrana et al., 2008; Mailankody, 2020). Vários autores descrevem também os cuidados paliativos simultaneamente como uma filosofia de cuidado e como um serviço organizado, o que ajuda a explicar por que razão o seu significado é frequentemente amplo e difícil de condensar numa única frase (Pastrana et al., 2008; Sawatzky et al., 2016; Walshe, 2019).
O que incluem:
Aspeto
Significado profundo na prática
Evidência
Sintomas
Alívio da dor, dispneia, náuseas, fadiga e sofrimento
(Wantonoro et al., 2022)
Pessoa
Preservação da dignidade, identidade e daquilo que é importante para a pessoa
(Wantonoro et al., 2022; Ning, 2025)
Relações
Apoio à família, aos cuidadores e à tomada de decisão partilhada
(Meghani, 2004; Bertaud et al., 2025)
Comunicação
Clarificação compassiva dos objetivos, prognóstico e escolhas de cuidado
(Roth & Canedo, 2019; Wiblin, 2024)
Sentido
Abordagem do sofrimento existencial e da perda de sentido na doença grave
(Alexander et al., 2025)
Mal-entendidos comuns:
Não são apenas cuidados à pessoa em processo de morte; a literatura afirma repetidamente que também se aplicam em fases mais precoces da doença grave (Wantonoro et al., 2022; Kircher et al., 2025).
Não são apenas cuidados oncológicos; o seu âmbito inclui atualmente demência, doença pulmonar, insuficiência cardíaca, doença neurológica e outras condições crónicas (Azizi et al., 2025; Sawatzky et al., 2016; Wiblin, 2024).
Não estão separados do tratamento; cura e paliação não são categorias mutuamente exclusivas (Meghani, 2004; Azizi et al., 2025).
Não correspondem apenas a tarefas médicas; o seu núcleo é relacional, assente na capacidade de resposta, na empatia e na presença junto de doentes e famílias em situação de vulnerabilidade (Bertaud et al., 2025; Matthys et al., 2024).
Porque é difícil definir o “significado profundo”
A literatura mostra uma discordância persistente quanto ao seu âmbito: alguns autores definem os cuidados paliativos como alívio de todo o sofrimento grave, enquanto outros os associam de forma mais estreita à esperança de vida limitada e aos cuidados em fim de vida (Radbruch et al., 2020; Ryan et al., 2020). É esta tensão que leva muitos artigos a enfatizar elementos centrais partilhados, em vez de uma formulação perfeita: cuidado centrado na pessoa como um todo, apoio à família, trabalho interdisciplinar, comunicação e qualidade de vida (Walshe, 2019; Meghani, 2004; Azizi et al., 2025).
Alguns trabalhos mais recentes sugerem que a essência dos cuidados paliativos consiste em identificar os problemas atuais que a medicina deve abordar para melhorar a qualidade de vida, incluindo o alívio da dor, a adaptação à doença e o planeamento antecipado de cuidados perante a incerteza (Mizuno et al., 2019). Estudos narrativos e focados no sentido acrescentam que os doentes frequentemente vivenciam os cuidados paliativos através do apoio, da escuta, do tempo, da preservação da identidade e do processo de morrer, mais do que através de definições abstratas (Matthys et al., 2024; Alexander et al., 2025).
No seu significado mais profundo, os cuidados paliativos têm menos a ver com “desistir” e mais com aliviar o sofrimento, preservar a dignidade e ajudar as pessoas a viver tão bem quanto possível durante a doença grave. Para decisões pessoais sobre serviços de cuidados paliativos numa doença específica, a orientação deve ser prestada por um profissional de saúde habilitado ou por um especialista em cuidados paliativos.